01.out.09 | 16:19

Ele tinha treze anos, ou seja, estava naquela idade em que até olhar calcinha pendurada no varal deixa qualquer pobre coitado em prontidão. Por isso ele vinha esperando o final de semana seguinte há tempos. Os pais iam viajar e por mais que tivessem tentado, não tinham conseguido ninguém pra fazer companhia para o filho durante a ausência. Ele, quieto, comemorou, porque estava de olho em um filme pornô que viu numa locadora e torcendo pra que ninguém o alugasse antes dele na sexta-feira.

Ah, sim, era época de modem de 56k, lembra? Não? Bom, vai no Google que eu espero.

Viu lá? Pois é, nessa época era tenso. Não tinha isso de páginas e mais páginas eróticas ao alcance de um click. A chance de ver um peitinho era quando chegava a quinta-feira e sua mãe não sabia que passava o programa “Coquetel”, com o Miele, quando sempre antes do intervalo uma das assistentes de palco mostrava uma fruta tatuada no peito. Dá pra ter uma idéia do porque disso acontecer quando vinha o intervalo, né? Mão à obra!

Mas enfim chegou lá o tal final de semana, e o garoto tremendo de medo de que chovesse ou que por qualquer outro motivo os pais desistissem, mas quando se deu conta a mãe tava dando dois beijinhos e dizendo “comporte-se”. Rá!

Ele esperou meia-horinha só pra garantir, e saiu como quem não quer nada. Chegou na locadora, que era propositalmente bem longe de casa, e ficou passeando uma hora por entre as prateleiras porque tinha uma menina bonitinha lá escolhendo um filmeco água-com-açúcar qualquer e que simplesmente não ia embora de jeito nenhum, o que o deixava constrangido. Além do mais, logo hoje, além do atendente normal, tinha uma mulher no balcão. Ou seja, ele precisava sincronizar tudo pra ser atendido pelo cara, contando com aquela coisa de cumplicidade masculina.

Outra parte do plano era pegar um filme “normal”, porque ele tinha medo que ao pôr os pés fora da locadora os atendentes lá dentro ficassem chocados e chamassem a polícia, a guarda-costeira, o Juizado de Menores, o Papa.

Quando enfim a maldita garota pegou “Harry e Sally” e foi embora, ele se encheu de coragem e pegou num bote certeiro a fita que queria. Pegou uma outra na seção de “aventura” sem nem saber qual era, na esperança de que, sei lá, o atendente nem se tocasse que o um era pornô e ficasse tudo por isso mesmo.

Com o coração disparado, chegou lá, deu nome, deu dinheiro. O atendente – sim, felizmente foi ele – deu uma olhada pra fita, uma olhada pra ele, outra olhada pra fita, outra olhada pra ele. “Pronto, é agora!” – pensou. Mas que nada. O cara colocou os filmes na sacola e falou quase bocejando: “amanhã até as 21h”

O rapaz já estava em êxtase antes de chegar em casa. Preparou todo o cenário; fechou as cortinas, forrou a cama com toalhas, apagou a luz. Colocou a fita no videocassete, fechou a porta e ficou de boca aberta.

FF… FF! Vamos ao que interessa!

E veio o que interessava. A mulher – linda, por sinal – começou a tirar a roupa ritualisticamente. O garoto, do lado de cá, começou seu ritual também. E aí, deu-se tudo. Ou melhor, não se deu mais nada. O videocassete guinchou igual a porco na faca e pronto: parou tudo. A fita tinha embolado no cabeçote.

Eject! Só saiu a ponta da fita.

Desesperado, o já não tão excitado garoto tentou de tudo. Até abrir o aparelho. E como desgraça pouca é bobagem, o telefone tocou e avisou justamente o quê? Isso aí: papai e mamãe voltando, e já chegando em casa, porque o tempo virou.

Hora de uma solução drástica. Usando a força que só a adrenalina dá pra gente, ele segurou aquela ponta de fita com todas as forças e deu um puxão. Sair ela saiu, mas ficou um metro de filme embolado dentro do videocassete. Aí, amigo, tesoura nele. Na pior das hipóteses, daria um jeito de pagar pelo filme. Cortou, emendou os pedaços que sobraram com durex e, com a ajuda de Onã, conseguiu tirar de dentro do aparelho o que tinha ficado por lá.

Voou de volta à locadora, deixou os dois filmes lá sem nem dar tempo ao atendente de perguntar por quê. Os pais já estariam em casa há uns bons vinte minutos quando ele chegasse, mas isso era outro problema.

Enfim, em casa. Suado. Tentando fingir que não ofegava. E, claro, o pai estava ainda com a roupa de viagem fazendo o quê? Mexendo na TV e no videocassete. Murphy não falha.

- Onde você tava? – Perguntou o pai.
- Fui ver se tinha alguma coisa interessante na locadora…
- Ainda bem que você não pegou nada. O video não quer funcionar. Só pode ser sacanagem!

E era.

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