TAPA DE AMOR DÓI

qui, 04/02/10

Se há algo que realmente me deixa feliz em escrever aqui no Banguela, esse algo se chama “Comentário do leitor”. É um sarro ler as opiniões dos que gostam dos meus textos e dos contrários que não sabem nem qual é a marca de perfume que eu uso – Home.com, anotem meninas – mas adoram acreditar que me conhecem. Acho que o nome disso é recalque por viver uma vidinha cretina tendo desejado mais aventuras mas sem colhões para entrar nelas. Me desculpe se eu não sou assim, é uma falha minha.


Aos 26 anos eu comecei a namorar uma garota chamada Letícia que morava na Gávea aqui no Rio de Janeiro. O pai dela era aviador aposentado e a mãe professora de geografia. Nos conhecemos no restaurante Hipódromo, que fica no Baixo Gávea, no aniversário do Thomas (lembra dele?). Ela era amiga de uma amiga dele e tinha um sorriso lindo acompanhado de um par de olhos azuis e cabelos loiros. Não precisei de muito tempo para me apaixonar pela simpatia dela e o volume interessante que saía do decote do vestido florido que estava usando.


COLUNISTA-VESTIDO-FLORAL-JB


Logo no dia seguinte a gente se encontrou para ir numa festa no Jóquei Clube e, como dizem vocês, nós “ficamos”. Ela fazia pós-graduação em História na PUC e sabia muita coisa sobre assuntos que não me interessavam, mas como o amor é cego e surdo, eu adorava ouvir as histórias que ela tentava me contar enquanto eu dava roubava bitócas. Eu nunca sabia o desfecho das histórias porque o clima ficava quente antes mesmo de qualquer general, desses com nome de rua, levar o seu batalhão para a guerra.


Como eu sabia que o sonho dela era conhecer a Europa, fui guardando grana para dar essa viagem de presente pra ela no dia do resultado da apresentação da monografia. Batata! Foi um ano e pouco saindo pra jantar em restaurantes “legaizinhos” e muito filme com pipoca em casa. No dia da aprovação dela, num jantar na casa dos pais com os tios e primos – ela era filha única – eu mostrei os bilhetes e mandei um “nous allons à Paris?” que segundo meu amigo Cláudio, que pegava uma francesa, significa “vamos à Paris?” - mas eu nunca soube se estava certo ou não.


COLUNISTA-bandeira-paris-JB


Arrumamos as malas e uma semana depois estávamos pousando no aeroporto Charles de Gaulle em Paris. Tudo era muito bonito e o sotaque francês -  que pra mim é o mais aviadado possível – fazia a Lê se derreter toda. De vez em quando eu soltava um “Je taime mon amour” só para ver o sorriso da Letícia e ganhar uns beijinhos doces (óóúunn). O Rio Sena na época era simplesmente um Tietê na França e não tinha nada de romântico. Passeamos por tudo e deixamos a Torre Eiffel para o último dia, queríamos fechar a viagem com chave de ouro.


Logo que chegamos, a Letícia teve uma das piores idéias da vida dela, a de subir a torre toda pela escada. Eu, esperto e objetivo, fui de elevador e esperei ela chegar, todo suada, cansada, esbaforida, com o cabelo bagunçado e sem nenhum pingo de bom humor. Como a situação apesar de trágica para ela, era engraçada pra mim, resolvi descontrair o ambiente.


Grande erro.


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- E aí, Mulher Maravilha, veio com o teto da nave invisível aberto?


- Porra, calmaí, to cansada.


- Ih, achei que você fosse mais Maravilha do que mulher.


- Você sabe onde eu sou maravilha, né?


- Onde? Na cama? Você faz mais manha que a mulher-gato.


- Se não gostou, porque não falou?


- Porque sexo até quando é ruim é bom.


- Porra! Então procura uma francesa aí e come ela a noite toda!


- A noite toda não seria uma má idéia, elas devem aguentar.


- Vai tomar no cu, Fernando!


- Ih, qualé? Não sabe brincar não sobe pro play. E se subir, vem de elevador na próxima.


- Se não gosta do meu sexo, vai procurar as putas na Champs-Élisées. Quem sabe você realiza o seu sonho de “conhecer Paris melhor”.


- Eu não. Sai mais barato trazer do Brasil.


Tá, eu sei que a piada foi pesada e tudo mais, mas um tapa na cara no alto da torre Eiffel não é a melhor lembrança que você espera ter da sua primeira vez na Cidade Luz. Ela pegou o elevador de volta, fez o check-out no hotel antes de mim e só nos encontramos no avião. Ela trocou de poltrona para não sentar no meu lado e nem nos despedimos no aeroporto. Tentei falar com ela várias vezes mas ela nunca me atendeu e não me recebia mais em casa. Nunca mais a vi e nem sei se está morando no mesmo lugar. Faz tanto tempo.


Eu me arrependo do que fiz. Não deveria ter deixado ela subir a torre Eiffel pela escada.


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